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Papéis Avulsos
“Advertência
Este título de Papéis
Avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que
o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de
os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são
eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam
de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família,
que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.
Quanto ao gênero deles, não
sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do
leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem
meros contos e outras que o não são, defendo-me das segundas
com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum
interesse, e das primeiras defendo-me com S. João e Diderot. O
evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica,
acrescentava (XVII, 9) “E aqui há sentido, que tem sabedoria”.
Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a
Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e
alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os
escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que
quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo
escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por
isso.
Deste modo, venha donde vier
o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição.
Machado de Assis
Outubro de 1882.”
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Relativismo e
Universais: um argumento
não-gellneriano
Renato Lessa
A proposição
gellneriana que sustenta serem os universais os remédios
adequados às incertezas postas pelo relativismo dificilmente
agrediria sensibilidades ordinárias. O apelo - fideísta ou
pragmático - a universais, para lidar com circunstâncias
incertas e dilemáticas, é, sobretudo, questão de bom senso.
David Hume, por exemplo, em seu Tratado da Natureza Humana,
defniu o apego dos homens ordinários às regras da common life
como marcado por uma blind submission. Nossa natureza, além de
exigir que respiremos, nos obriga a crer, ainda que os
fundamentos ficcionais desse ato de aposta possam ser
demonstrados por graves metafísicos. Ao descrever essa forma
de submissão, Hume não fez mais do que retomar uma antiga
proposição de Protágoras: fora do universo das regras de
justiça e dos padrões públicos de juízo moral, a vida humana é
esporádica e bestial. Os universais, mais do que andídotos à
relatividade da vida, são corolários da diversidade. Não há
utilidade para universais em um mundo não marcado pela
incerteza e pela variedade.
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Experimento
Bayle: forma filosófica, ceticismo, crença e configuração do
mundo humano
Renato
Lessa
São as paixões
humanas que derrotam o espírito matemático e a obsessão por
sistemas. Dessa forma, o veto ao espírito geométrico
aproxima-nos do tema da condição humana. Ao atingir o tema
antropológico, Bayle opõe Descartes a Hobbes. Aqui o que
importa não é a denúncia das obsessões geométricas, mas as
proposições hobbesianas a respeito da natureza humana. Segundo
Descartes, pelas mãos de Bayle, os princípios de Hobbes são
“extremamente perniciosos e muito perigosos”, na medida em que
apresentam os seres humanos como brutais e lhes dá razão para
assim o ser. Diz ainda Descartes que o propósito hobbesiano de
escrever a favor da causa monárquica poderia ser cumprido a
partir de “máximas mais virtuosas e mais substanciais”.
Conclui afirmando não ver como Hobbes poderia impedir que seu
livro – De Cive – fosse censurado.
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Montaigne’s and
Bayle’s Variations: The Philosophical Form of Scepticism
in Politics Renato
Lessa
It is
impossible to exaggerate the importance of Richard Popkin in
any reassessment of the role of scepticism in the
configuration of modern philosophy. The fecundity of
Popkin’s enterprise may be detected in the vast proliferation
of questions that he has prompted. In fact, when
re-established as a major philosophy, queries about scepticism
may arise that are conventionally applied to philosophical
traditions whose relevance has always been acknowledged as
undisputed. A far from exhaustive listing might well
include queries about the morality of scepticism, its
anthropology, its attitude towards science, the possibilities
of a sceptical aesthetics and, for the purposes of these
reflections, its modes of perceiving politics and social
life.
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O Silêncio e sua Representação Renato Lessa
Auschwitz,
em sua máxima expressão – a do aniquilamento completo de suas
vítimas -, pode ser imaginado como um experimento de vitória
total do silêncio e como supressão definitiva das vozes
humanas. O silêncio impõe-se, ao fim de tudo, em sua máxima
compactação, precedido tão-somente da inutilidade e finitude
dos sons humanos. Tal como um coro em desespero, as
derradeiras vozes terminam por condensar-se no definitivo
operador do silêncio – a morte - e nele se
dissolvem.
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A quoi sert la répresentation? ou les formes
de la distinction Renato
Lessa
Une voix
courante entre les politologues d'orientation
institutionnaliste assure la santé et, pourquoi ne pas le
dire, la vertu des mécanismes institutionnels qui configurent
la démocratie au Brésil. La régularité électorale, la
consolidation d’un système pluriel de partis politiques,
fragmentaire mais fonctionnel, une logique législatif
possédant de la rationalité en dépit de sa phénoménologie
parfois bizarre et douteuse, et une corrélation puissante
entre la compétitivité politique-électorale et l’acceptation
universelle des règles du jeu, toutes ces dimensions, dans un
mot, définiraient un ensemble d’évidences à propos de la
consolidation, de la normalité et du plein fonctionnement des
institutions politiques du pays.
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Uma História da Dúvida Renato Lessa
Em 1634, na
cidade de Loudun, na França, o padre Grandier foi acusado de
infestar um convento e suas pobres freiras com legiões de
demônios. O processo ao qual foi submetido foi genialmente
descrito por Aldous Huxley em The Devils of Loudun, em
uma história que mesclava demonologia, fideísmo e devoção
religiosa. O episódio, além de revelar a presença de um enorme
interesse popular e erudito a sobre o tema da possessão
demoníaca, em um século no qual muitos supõem ser marcado pela
força do esprit laïque, suscitou um instigante problema
de ordem cognitiva. Com base em que critérios, questões dessa
natureza – possessões demoníacas – poderiam ser
julgadas?
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Crueldade e Justiça no contexto da
Teoria Política Moderna Cesar
Louis Kiraly
Partimos da seguinte questão: deve a política pensar
a crueldade? As possíveis respostas remeterão a algumas
novas questões. Apostamos da resposta afirmativa. De
nossa resposta, em aposta, se segue uma nova questão.
Pode a política não pensar a crueldade? No caso da
política não pensar a crueldade haveria alguma
imprecisão em seus conceitos? Perceber onde, na teoria
política, podemos buscar fundações e fundamentos para
refletir sobre a crueldade é bastante complicado. Pois o
vocabulário da crueldade é relativamente estranho para a
política. Melhor dizendo, o vocabulário da crueldade foi
sempre de importância secundária, servindo muito mais
para adjetivar modos de pensamento do que propriamente
para erigir alguma, mesmo frágil, sistematicidade
conceitual.
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