Apresentação
O Laboratório de Estudos Hum(e)anos dedicou um semestre acadêmico para a investigação do pensamento medieval. No segundo semestre de 2007 pesquisadores de Ciência Política e Sociologia tiveram diante dos olhos as colunas bilíngües das traduções da obra Tomás de Aquino, tiveram na imaginação as agruras do pathos de Agostinho e no entendimento as regras da prova de entidades metafísicas de Anselmo. Distantes do triste argumento da atualidade os pesquisadores investiram na vivacidade do pensamento medieval. Por certo, espíritos, por assim dizer, treinados para a política, e para a sociabilidade, insistem em ver a invenção da modernidade pressuposta nesses autores.
Mas nem sempre os pesquisadores do L(E)H foram consensuais na possível modernidade do pensamento medieval ou na provável intensidade medieval do pensamento moderno. Esse dissenso criativo pode ser lido nas páginas da Revista Estudos Hum(e)anos. A autoridade e o modo de pensar pela infidelidade, a relação entre a crença e o temor, a densidade ontológica do logos, bem como, a dimensão da lógica do nome são questões vivas nos ensaios de nosso número de nascimento. Essas questões foram abordadas, outrossim, no Colóquio de Medieval, promovido, em Agosto no IUPERJ, pelo L(E)H.
O primeiro número da R(E)H é numerado com Zero. Com efeito, o pitagorismo conhecia o encantamento dos números, mas não são os pitagóricos que inventam o Zero, mas a imaginação lúdica dos indianos. Com os romanos aprendemos a dizimar (matar de dez em dez homens), com os egípcios aprendemos a encarcerar um milhão de homens (o hieróglifo que representa o numeral um milhão é a imagem de um homem de joelhos em súplica, apenas ao Faraó era dado utilizar essa representação, porque apenas ele poderia ter um milhão de coisas), mas com os árabes aprendemos o Zero inventado pelos indianos.
A filosofia grega também nos é ensinada pelos árabes. Mas como os árabes antes de nos ensinar a filosofia aprenderam o uso matemático e lúdico do Zero; a filosofia grega aprendida pelos medievais é a filosofia grega mais o Zero. O pensamento judaico também aprende com a filosofia grega mais o Zero. Maimônides, tratado por Tomás como o Egípcio, escreve o Guia dos Perplexos para enfrentar a questão das grandezas negativas, aquelas que são desde o Zero, ou antes dele. A R(E)H oferece este número Zero: números das grandezas negativas e das multiplicidades infinitas. Porque ainda que não se deseje uma política do pensamento medieval, o atravessamento da sociabilidade produz um pensamento político cujas questões começam no mundo medieval. O vocabulário subjetivo da intencionalidade, a força pregnante do logos e a crença provam esse começo medieval de grandezas.
|
 |
|
| |
|
|
Edição
0 - Agosto de 2008
A autoridade
política no pensamento medieval ocidental
A abadessa infiel e o cavaleiro apóstata
A história como ontologia do mundo
Ockham, Baskerville e a desdivinização do logos
A virada cristã
O nominalismo em Hobbes
Pensamento Soberano
|
A
autoridade política no pensamento medieval ocidental
Autor:
Dawisson Belém Lopes
Resumo:
Este
ensaio pretende acompanhar, de um modo um tanto panorâmico,
a evolução da noção de autoridade política no pensamento
medieval ocidental, contemplando desde as idéias políticas
de Agostinho, no século IV d.C., até a contribuição dos
Franciscanos, no século XIV d.C. Em seguida, buscar-se-á
identificar o momento da transição de uma concepção de
autoridade política bastante pontuada por considerações
religiosas para outra, de inspiração notadamente secular,
que embasará as visões de mundo na modernidade.
»
ver artigo |
|
|
|
A
abadessa infiel e o cavaleiro apóstata
Autor:
Patrícia Rangel
Resumo:
A popular
história de Abelardo e Heloísa foi-nos contada de forma
mistificada por inúmeras narrativas ao longo de sete
séculos. Em todas elas, Heloísa é sempre vinculada a
Abelardo. Mesmo sendo conhecido seu talento e erudição, não
lhe é dado o reconhecimento de ser humano independente
daquele que foi seu esposo. As correspondências que os
companheiros nos legaram, ao contrário, permitem-nos
conhecer um pouco dessa mulher e de seu drama pessoal
causado pelo envolvimento amoroso com uma das mentes mais
brilhantes que a Idade Média acolheu. Ainda que de forma
modesta e despropositada, Heloísa contribuiu para desvelar o
caráter androcêntrico das obras canônicas da filosofia e a
razão patriarcal da história do pensamento filosófico. O
presente ensaio se propõe a desenvolver reflexões acerca da
importância de Heloísa, enquanto esposa no século e irmã no
Cristo de Abelardo. Queremos tornar visível sua trajetória,
apontar seus feitos, mostrar o que havia de autônomo em seu
pensamento nas cartas que enviou a Abelardo e sugerir sua
relevância no contexto histórico. Não pretendo, de forma
alguma, apontar Heloísa como mártir feminista, atribuir a
ela méritos que não sejam seus nem fazer qualquer afirmação
anacrônica. Trata-se, claramente, de um ensaio de abordagem
mais antropológica e sociológica do que um estudo sobre
pensamento medieval ou filosofia ‘stricto sensu’.
»
ver artigo |
|
|
|
A
história como ontologia do mundo
Autor:
Cleber Ranieri Ribas de Almeida
Resumo:
Investigação do pensamento de Luciano de Samósata.
»
ver artigo |
|
|
|
Ockham, Baskerville e a desdivinização do logos
Autor:
Pedro Luiz Lima
Resumo:
Investigação das filosofias de Guilherme de Ockham e
Guilherme de Baskerville.
»
ver artigo |
|
|
|
A virada
cristã
Autor:
Rafael Assumpção de Abreu
Resumo:
Investigação das relações entre o pensamento de Agostinho e
o evangelho. Na perspectiva dos elementos da doutrina do
caminho. Elementos de interioridade no pensamento de
Agostinho e na filosofia medieval. »
ver artigo |
|
|
|
O
nominalismo em Hobbes
Autor:
Bernardo Bianchi Barata Ribeiro
Resumo:
Investigação no pensamento de Hobbes, suas bases
nominalistas e referência ao ambiente conceitual da idade
média.
» ver artigo
|
|
|
|
Pensamento soberano
Autor:
Cesar Louis Kiraly
Resumo:
Este
ensaio sugere novo caminho para a compreensão do modo
discursivo do pensamento soberano, incorporar a distinção
entre infinito e ilimitado. O ilimitado diz respeito ao
temor, cujo rebatimento na natureza humana é o tremor.
Fundação clássica da existência da autoridade política. »
ver artigo |
|
|
|
|
O Laboratório de Estudos Hum(e)anos investe esforços na organização do periódico Estudos Hum(e)anos. Esse periódico tem como objetivo tornar pública a produção dos pesquisadores do laboratório, bem como, estabelecer espaço para a dinâmica de discussões inventivas em filosofia política. A agenda de pesquisa do laboratório fez com que saltasse aos olhos a necessidade de um periódico de filosofia política e filosofia pública. Assim, Estudos Hum(e)anos reúne estudos cujo objeto é o fenômeno político. A publicação conta com periodicidade semestral.
Renato Lessa
Editor
Cesar Louis Kiraly
Editor Executivo
Caterina Koltai (Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo)
Cícero Romão Araújo (Universidade de São Paulo)
Diogo Pires Aurélio (Universidade Nova de Lisboa – Portugal)
Joel Birman (Universidade Federal do
Rio de Janeiro)
John Christian Laursen (Universidade da
Califórnia Riverside)
José Raimundo Maia Neto (Universidade Federal de Minas Gerais)
Laura Gioscia (Universidad de la
República - Uruguai)
Rui Bertrand Romão (Universidade Nova de Lisboa – Portugal)
Paulo Tunhas (Universidade de Fernando Pessoa – Portugal)
Conselho Editorial
|